Publicação Diário de Santa Maria

 

O artigo Criança e a televisão foi hoje publicado no Diário de Santa Maria. O mesmo já foi publicado do blog, mas como em um jornal há sempre reformulações convido a vcs que possam apreciar sobre este tema tão atual que vivenciamos com nossas crianças todos os dias. Seus movimentos corporais ficam engessados na frente da televisão e as mesmas muitas vezes reproduzem as falas dos seus personagens ficando sem ação em suas relações com o social.

Santa Maria, 19 de março de 2009.        Edição nº 2134

ARTIGO
Crianças e televisão
MARIA LUIZA LEAL PACHECO

 
 

Os movimentos corporais das crianças se encontram “engessados” frente ao cenário virtual. Uma das formas que prendem a atenção das crianças – e muitas vezes com o incentivo dos pais – são as “babás eletrônicas educativas”, a televisão. As crianças e, principalmente, as menores, de 2 a 5 anos, ficam vivendo a realidade dos personagens, falam como eles. Até o português é dito de forma correta para a idade, não há “desvio” na língua.

Diante de tal cenário, alguns pais ficam orgulhos de seus filhos, mostram aos seus amigos e familiares como as crianças falam corretamente. Porém, essas crianças, ao serem convocadas para falar sobre outras questões que não sobre esse universo da televisão, pouco dizem ao serem questionadas. O assunto é rígido, contam as aventuras dos personagens favoritos e nada mais. Não escutam o que lhe é perguntado, evidenciando que algo não foi estabelecido, houve uma falha, no que tange à formação subjetiva.

O que pode ser feito para que as crianças possam interagir mais: criarem, brincarem, movimentarem-se. Evidentemente que, respeitando a evolução dos tempos e da tecnologia, as brincadeiras do passado poderiam somar com as do cenário atual. As “velhas” brincadeiras despertavam a criatividade e ensinavam a produzir seus brinquedos. O andar em cima de latas tinha um sabor diferente, porque eram as próprias crianças que confeccionavam tais brinquedos. Jogar amarelinha, brincar de esconde-esconde, de mamãe e filhinha, jogar vôlei, futebol, brincar de polícia-e-ladrão assumiam uma conotação que fazia a diferença na interação social e subjetiva.

Tais brincadeiras traduzem a sutileza da produção e autoria que tais brincadeiras produziam na constituição psíquica dos sujeitos em formação. Os corpos “engessados” na frente da televisão não as possibilitam representar, simbolizar e, muito menos, criar, pois elas vivenciam aquilo que está sendo transmitido pela “babá educativa”, criando falas robotizadas, pois há pouca produção nessas falas.

Os pais e os profissionais da saúde precisam estar mais atentos às sutilezas em que os sintomas aparecem na infância, pois o excesso de televisão na vida das crianças pode causar marcas, como dificuldade na aprendizagem e em interagir com as pessoas. Freud já dizia que quem brinca trabalha e consegue trocas no social, pois formou sua subjetividade. Nesta fase é preciso ter muito cuidado com as crianças para que cresçam saudáveis psiquicamente.

Psicóloga, especialista em Psicologia Clínica

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